Partindo de um enquadramento histórico, gostaria de evidenciar como a gestão, de um modo geral, e a gestão de projectos, em particular, se tornaram fulcrais para a civilização ocidental e o seu “modus vivendi”, e como poderão as mesmas contribuir para um futuro de crescimento sustentável.
Existem muitas definições de gestão de projectos, mas talvez a mais simples e fácil de entender seja a de que se trata de uma sequência de actividades não-repetitivas, com datas de início e fim bem identificadas, e objectivos bem delineados, dispondo de um conjunto limitado de recursos. Embora só no século XX a gestão de projectos se tenha tornado uma disciplina de estudo e normalização de procedimentos, a sua utilização é necessariamente mais remota. Recuemos ao tempo em que o Homem se tornou sedentário e se dedicou ao cultivo e criação de gado. Nessa altura, surgiu pela primeira vez a necessidade de planear o futuro, coordenar tarefas e optimizar recursos, pelo que, ainda que de forma muito rudimentar, a gestão de projectos tenha nascido como actividade humana do período Mesolítico.
A gestão de projectos pode ser encontrada nas mais diversas fases da História. Se analisarmos as grandes obras da Humanidade, de que são exemplo as Pirâmides de Gizé, no Egipto, percebemos que, dada a quantidade de tarefas e recursos envolvidos, a sua construção terá representado um tremendo desafio de organização e gestão. Em algumas destas obras, aliás, foram encontradas provas inequívocas de organização e gestão muitíssimo complexas e avançadas para a época.
No início do século XX, com Henry Gantt (que veio dar o nome aos bem conhecidos diagramas de Gantt) e Henri Fayoll, foram criados os fundamentos da gestão de projectos moderna, com a introdução de fluxos de planeamento e controlo de actividades. No entanto, só na década de 50 a gestão de projectos foi formalmente reconhecida como disciplina de gestão.
No desenvolvimento do sistema de mísseis Polaris da Marinha dos Estados Unidos e no cenário da guerra fria foram desenvolvidos novos métodos como o PERT (“Program Evaluation and Review Technique”) e o CPM (“Critical Path Method”), que além de terem permitido realizar estes projectos com grande sucesso, deram ao gestor de projectos um procedimento sistemático de análise que lhe permite antecipar desvios ao planeamento. Desde o aparecimento do PMI (Project Management Institute) em 1969, várias instituições se dedicaram ao estudo, desenvolvimento e formação de gestores de projectos, criando métodos e standard, que são hoje universalmente aceites. A gestão de projectos foi adoptada por inúmeras áreas profissionais, das quais destaco a construção civil, a indústria militar e, claro, as tecnologias de informação, onde a ferramenta é imprescindível.
Muitas são as empresas que mudaram a forma tradicional de gestão departamental em silos e passaram para organizações matriciais em que os gestores de projecto partilham os recursos com os gestores funcionais. As empresas de tecnologia são as que mais assimilaram a gestão de projectos, dado que ,mais do que produtos e serviços, procuram hoje fornecer aos seus clientes projectos onde o âmbito e duração estejam definidos, compreendidos e formalmente aceites.
A tão falada crise, que está instalada nas empresas, nasceu no sector económico e alastra-se a cada dia a mais empresas, numa espiral de destruição de valor e confiança difíceis de antecipar, compreender e essencialmente de combater. Como em qualquer crise, a receita para sobreviver parece ser a optimização dos recursos disponíveis, que é afinal a tarefa de excelência da gestão de projectos. Neste cenário de incerteza, várias empresas reduzem o âmbito dos seus projectos ou simplesmente eliminam-nos, mas esta é certamente uma fase de grandes desafios para os gestores de projectos, ou, melhor, para os gestores em geral, que são chamados a encontrar soluções para se conseguir diminuir drasticamente os custos sem pôr em causa os objectivos.
Em chinês, crise pronuncia-se através da junção de duas palavras (“wei ji”) que querem literalmente dizer “perigo” e “oportunidade”. Para os gestores de projecto que conseguirem ultrapassar o perigo de ficarem sem projectos, terão uma oportunidade única de ultrapassar as dificuldades e encontrar soluções que certamente farão escola em tempos menos conturbados. Segundo algumas métricas retiradas do mercado de TI norte-americano, mais de 40% dos projectos terminam tarde, ultrapassam o orçamento em mais de 1,8 vezes, não satisfazem os requisitos técnicos em quase 70% dos casos e são cancelados em cerca de 30% das situações. Há, portanto, muito por onde melhorar.
Não duvido que as lições que estamos a aprender nestes tempos difíceis, onde nem a as leis da sobrevivência de Darwin parecem ter aplicabilidade, uma vez que estão a cair por terra empresas frágeis, mas também empresas extremamente robustas e saudáveis, nos sejam úteis de futuro. Um exemplo paradigmático é o da economia indonésia, que, embora fosse uma das mais confiáveis, tinha como principais clientes da sua bolsa de valores fundos internacionais compostos das várias bolsas orientais. Ora, quando a economia tailandesa ruiu, os fundos foram vendidos em massa e os seus efeitos foram catastróficos em todas as economias da região, incluindo a dita economia forte da Indonésia. A principal lição a memorizar é a de que hoje, num mundo globalizado, devemos analisar as empresas e mesmo os países não só de forma analítica, mas principalmente de forma sistémica.
Será preciso aplicar os princípios de gestão (de projectos inclusive) a toda uma cadeia de valor, desde o produtor ao consumidor, eliminando ao limite todos os custos que não tenham qualquer valor acrescentado perceptível. É assim previsível que a gestão se torne cada vez mais transorganizacional e mesmo transnacional. A gestão de projectos pode e deve prover-se de meios e ferramentas para o novo mundo que está a chegar.
Miguel Arga e Lima
Gestor de projectos
Artigo publicado em “Vida Económica” a 31 de Julho de 2009
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
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